terça-feira, 24 de julho de 2012

Max, o Mendigo




Max, O Mendigo

Pelo ano de 1850, morreu numa aldeia da Baviera, um velho quase centenário, conhecido como Pai Max. Ninguém sabia, ao certo, a sua origem, pois não tinha família.

Desde quase meio século, abatido por enfermidades que o impossibilitavam de ganhar a vida pelo trabalho, não tinha outro recurso senão a caridade pública, que dissimulava indo vender nas fazendas e castelos, almanaques e pequenos objetos. Tinham-lhe dado o apelido de Conde Max e as crianças só o chamavam Senhor Conde, com o que sorria sem se formalizar. Por que tal título? Ninguém saberia dizer: já era hábito. 

Talvez fosse por causa da fisionomia e das maneiras, cuja distinção contrastava com seus trapos. Vários anos após sua morte apareceu em sonho à filha do dono de um dos castelos, onde era hospedado na cavalariça, pois não tinha domicílio. E lhe disse: “Obrigado por vos terdes lembrado do pobre Max em vossas preces, pois foram ouvidas pelo Senhor. Desejais saber quem sou eu, alma caridosa que vos interessastes pelo infeliz mendigo? Vou satisfazer-vos. Será para todos uma grande instrução”.

Então fez o relato que segue, mais ou menos nestes termos:

“Há mais ou menos um século e meio eu era um rico e poderoso senhor desta região, mas vão, orgulhoso e enfatuado de minha nobreza. Minha imensa fortuna jamais serviu senão para os meus prazeres, e apenas bastava, porque era jogador, debochado e passava a vida em orgias. Meus vassalos, que julgava criados para meu uso como animais de fazenda, eram oprimidos e maltratados para contribuir para as minhas prodigalidades. Eu ficava surdo às suas lamentações, como às de todos os infelizes e, em minha opinião, deviam sentir-se muito honrados de servir aos meus caprichos. 

Morri em idade pouco avançada, esgotado pelos excessos, mas sem haver experimentado nenhuma verdadeira desgraça. Ao contrário, tudo parecia sorrir-me, de sorte que, aos olhos de todos eu era um dos felizes do mundo. Minha classe me valeu funerais suntuosos; os vivedores lamentaram em mim o faustoso senhor, mas nem uma lágrima caiu em minha sepultura, nem uma prece de coração subiu a Deus por mim e minha memória foi maldita por todos aqueles cuja miséria eu havia agravado. Ah! Como é terrível a maldição dos que tornamos infelizes! ela não cessou de retinir em meus ouvidos durante longos anos, que me pareciam uma eternidade! E, à morte de cada uma de minhas vítimas, era uma nova figura ameaçadora ou irônica que se erguia à minha frente e me perseguia sem trégua, sem que eu pudesse encontrar um recanto escuro para me subtrair à sua vista. 

Nem um olhar amigo! Meus antigos companheiros de deboche, infelizes como eu, me fugiam e pareciam dizer com desdém: “Não podes mais pagar os nossos prazeres.” Oh! Como eu teria pago caro um instante de repouso, um copo d’água para estancar a sede causticante que me devorava! Mas eu não possuía mais nada e todo o ouro que havia semeado a mancheias na Terra não havia produzido uma só bênção! uma só, ouvis, minha filha!

Por fim, abatido pela fadiga, esgotado como um viajante tresmalhado, que não vê o termo de sua rota, exclamei: “Meu Deus! tende piedade de mim! Quando terminará esta horrível situação?” Então uma voz, a primeira que ouvia desde que deixei a Terra, me disse: “Quando quizeres. – Que devo fazer, grande Deus? respondi; dizei; eu me submeto a tudo. – É preciso que te arrependas; que te humilhes ante aqueles que humilhaste; pedir-lhes que intercedam por ti, porque a prece do ofendido que perdoa é sempre agradável ao Senhor.

”Humilhei-me, pedi aos meus vassalos, aos meus servos, que estavam à minha frente e cujos rostos cada vez mais benevolentes acabavam desaparecendo. Foi então para mim como uma nova vida; a esperança substituiu o desespero e agradeci a Deus com todas as minhas forças de minh’alma. A voz me disse então: “Príncipe!” e eu respondi: “Aqui não há outro príncipe senão o Deus Todo-Poderoso, que humilha os soberbos. Perdoai-me Senhor, porque pequei; fazei de mim um servo de meus servos, se tal for a vossa vontade.”

Alguns anos depois nasci de novo, mas esta vez de uma família de pobres camponeses. Meus pais morreram deixando-me criança, e fiquei só no mundo sem apoio. Ganhei a vida como pude, ora trabalhador, ora como criado de fazenda, mas sempre honestamente, porque desta vez acreditava em Deus. Aos quarenta anos, uma moléstia me tornou entrevado de todos os membros e tive que mendigar por mais de cinqüenta anos nas mesmas terras das quais tinha sido dono absoluto; que receber um pedaço de pão nas fazendas que tinham sido minhas e onde, por amarga ironia, me tinham apelidado Senhor Conde; que muitas vezes me sentir feliz com um abrigo na escuderia do castelo que fora meu. 

No sonho comprazia-me em percorrer esse Castelo que onde mandara como déspota. Quanta vez, em meus sonhos, me reviu em meio à minha antiga fortuna! Essas visões me deixavam, ao despertar, um indefinível sentimento de amargura e de pesar. Mas nunca um lamento me escapou da boca. E quando aprouve a Deus me chamar, eu o bem disse por me ter dado coragem para sofrer sem murmurar essa longa e penosa prova, cuja recompensa hoje recebo. E vós, minha filha, eu vos abençôo por haverdes orado por mim.” 

OBSERVAÇÃO:

Recomendamos o caso aos que pretendem que os homens não teriam mais freio se tivessem à frente o espantalho das penas eternas. E perguntamos se a perspectiva de um castigo como o do Pai Max é menos apta para estacar na via do mal do que as torturas sem fim, nas quais não mais acreditam.

(Revista de Allan Kardec)


Fonte: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=439971216047508&set=a.422568384454458.104452.422558511122112&type=1&theater

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