terça-feira, 20 de julho de 2010

Importância da Amizade para a Vida (José Carlos da Costa)




O ser humano atualmente vive em sintonia com o seu tempo: corre, trabalha muito e aprendeu a duras penas a cuidar da própria vida. Logo, não poderia ser diferente: o isolamento, o individualismo e a solidão aumentam consideravelmente a sensação de desamparo, de desespero e de vulnerabilidade ou fracasso. O que pode levar à depressão e à situações crônicas.

Não raramente, ouço no consultório, pacientes se queixarem da solidão. Também não raramente, pedem-me que eu seja “amigo”. Porém, cabe explicar: o psicólogo não pode ser amigo. É uma outra relação que difere muito da amizade. Porém, tão importante quanto ter um profissional cuidando de sua saúde, é também, distribuir a necessidade de afeto e amor que todos temos. Várias áreas de nossa vida necessitam de atenção, carinho e dedicação. Pode ser o estudo, o trabalho, um passatempo, um animal de estimação ou uma atividade filantrópica. Não importa. O fato é que todo ser humano precisa do outro para poder ter uma vida melhor.

Aprendemos que o “Inferno é o outro” na citação do filósofo existencial Jean Paul Sartre. Acreditamos tão piamente nisso que nos esquecemos desse outro.

Andamos desconfiados nas ruas, trancamos com cadeados e trincas nossas casas e sentimos que o outro pode também ser fonte de alegria, aprendizado e carinho. Mesmo com toda a descarga capitalista de “cada um por si”, a necessidade humana de amigos se mantém intacta. Adaptou-se aos programas de computador e faz uso da tecnologia. As comunidades virtuais e o os programas de trocas de mensagens instantâneas estão aí, provando que as pessoas necessitam de amigos e do sentimento que são queridas e desejadas.

Acontece que mesmo com telefones, celulares, computadores as pessoas se sentem sozinhas. Sozinhas porque muitos apenas esperam que o outro faça tudo por elas, que as agradem infinitamente. Porém, como lembra uma linda frase que li outro dia: “Para se ter amigos é preciso ser amigo”. E para ser amigo? Freud diz que fazemos com o outro aquilo que fazemos com nossas próprias vidas. Logo, para que possamos por em movimento a energia do amor que tanto queremos, é preciso anteriormente, amar a si mesmo e conhecer esse ilustre desconhecido que guardamos no nosso interior.

Porém, como mencionei no começo, os tempos atuais não permitem que temos tempo e essa tem sido a desculpa moderna para negligenciar as necessidades de contato, de quietude, de comer adequadamente e tantas outras. Também se fez uma grande confusão: se confundiu a individualidade com o individualismo. Por individualidade cabe entender que é a expressão máxima de nossa alma. Aquilo que fazemos que ninguém mais faz igual. Nossos pensamentos, gestos, formas de reagir, enfim, tudo isso, compõe a nossa individualidade.

Individualismo é quase como uma distorção: é a frieza implacável, a competição desenfreada e o isolamento neurótico que nos impede de enxergar o outro e suas necessidades.

Essa confusão impede as pessoas de perceberem que suas ações tem implicações na vida do outro. Será que o caos ecológico, financeiro, político não tem nada a ver com nossas ações? Quem elegeu alguns políticos que ou nada entendiam de política ou roubam descaradamente? Como os bueiros entupiram tanto a ponto de provocar enchentes? Como a água foi acabando no planeta todo?

Como se pode perceber, o individualismo perpetuado pelo capitalismo ao longo da história impediu as pessoas de perceberem a importância do compartilhar responsabilidades, de trabalhar em equipe e de conviver com a diversidade.

Não à toa, as concepções atuais de Administração, Educação e Saúde (entre tantas outras) levam em conta a valorização das pessoas.

E que ninguém pense que amigo é apenas para concordar, dar apoio ou dar tapinhas nas costas nos momentos bons.

Joel Birman, psicanalista carioca, em seu maravilhoso livro “Arquivos do Mal estar e da resistência” posiciona a fraternidade como a saída para a civilização, que até então, se pautou na competição e na rivalidade.

Reflita sobre isso!



José Carlos da Costa Psicólogo pós-graduado pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo
CRP 06/75153
Fonte: http://clinicadepsicologia.blogspot.com/2008/08/homenagem-aos-meus-queridos-amigos.html

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